Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Comunicado da Comissão Instaladora do Núcleo dos Alunos de EACs

Estimados Colegas do Curso de Estudos Artísticos e Culturais:
É com satisfação que, enquanto membros da Comissão Instaladora do Núcleo dos Alunos de EACs, vimos dar-vos conhecimento dos passos percorridos e a percorrer, no sentido de tornar realidade a Criação do Núcleo dos Alunos de EACs.
Gostaríamos também de aproveitar para agradecer a todos os colegas as palavras de apoio e disponibilidade demonstrada para colaborarem na tarefa de concretização deste projecto. Só com o apoio de todos poderemos almejar levar a bom porto esta iniciativa.
A nossa motivação é lançar as bases para o desenvolvimento de um Núcleo que promova acções que visem:
  • Promover a partilha de experiências, oportunidades, realizações... entre todos os alunos - antigos e actuais - do Curso de EACs.
  • Ajudar na inserção dos futuros licenciados no mercado de trabalho, nomeadamente através de estágios profissionais e de fluxos de informação.
  • Promover actividades de índole cultural e formativa.
  • Criar laços de amizade entre os antigos, actuais alunos e docentes, criando um espírito de comunidade entre todos os EACs.
  • Criar um observatório de emprego on-line da Licenciatura EACs.
  • Promover o recurso ao Mecenato com vista a responder a necessidades concretas – por exemplo, criação rede de solidariedade.
Para a concretização destas e de outras linhas de acção contamos com a vossa colaboração, apresentação de comentários, sugestões...

Quanto às actividades realizadas e a realizar proximamente:

1. A Comissão Instaladora do Núcleo alunos EACs reuniu por duas vezes, tendo sido abordados, no âmbito do Plano de acção para a Criação do Núcleo Alunos EACs, os seguintes assuntos:
  • Elaborar uma proposta de regulamento do funcionamento do Núcleo.
  • Criar as bases de articulação do Núcleo com a Faculdade, com a Associação dos Antigos Alunos e com a Associação de Estudantes da FacFil.
  • Elaborar um plano de actividades para o próximo ano lectivo.
  • Organizar um encontro de todos alunos de EAC´s (antigos e actuais), com uma parte recreativa e social (jantar e convívio), apresentação e discussão da proposta de regulamento do funcionamento do Núcleo; diálogo acerca de futuras iniciativas e captação de colaboradores com vista à dinamização e actividade do Núcleo.
2. Esta Comissão tem agendado um encontro com o Senhor Director da Faculdade a fim de lhe dar conhecimento deste projecto, no dia 07/07, pelas 17h. De seguida, pelas 18,00h, a Comissão reunir-se-á para darmos seguimento ao trabalho em curso.

Todos juntos faremos a diferença, para o bem comum!
Saudações académicas

A Comissão Instaladora do Núcleo dos Alunos de EACs:
Anabela Guimarães (Coordenadora), Conceição Oliveira, Filomena Fonseca
Contacto: nucleoalunoseacs@gmail.com

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Terça-feira, 30 de Junho de 2009

"O Conde d'Aurora e o desenvolvimento da Ribeira Lima"

Cândido Martins saúda e aprecia criticamente a publicação de Esparsos, Raros e Inéditos do Conde d'Aurora, uma obra que reúne um número considerável de textos dispersos por diversas publicações, e que versam o mundo rural no Vale do Lima nos seus traços etnográficos e culturais mais singulares e potenciadores do desenvolvimento daquela região.
Texto publicado na Limiana – Revista de Informação, Cultura e Turismo, Lisboa, Ano II, nº 11, Fevereiro de 2009.

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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Concurso de Ideias Criativas CRIAR 2009

2009 é o Ano Europeu da Criatividade e Inovação, por iniciativa da Comissão Europeia e decisão do Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia. Os objectivos do Ano Europeu são:
  • desenvolver o potencial da criatividade e inovação como resposta aos desafios globais
  • fortalecer as competências-chave para as pessoas e para o desenvolvimento
  • incentivar a aplicação da criatividade e inovação nas diversas dimensões da vida

Neste quadro, o Gabinete do Coordenador Nacional do Ano Europeu e da Estratégia de Lisboa lançou o Concurso Nacional de Ideias Criativas Criar2009 com o objectivo de incentivar a criatividade e a inovação, valorizando a sua aplicação prática na actividade económica e o seu contributo para a modernização da sociedade.
Propõe-se aos cidadãos portugueses e a cidadãos residentes em Portugal que concebam uma ideia inovadora a agrupar-se numa de três áreas:

  • visões (propostas de natureza conceptual)
  • design (propostas de criação de um objecto, forma ou estrutura, funcional ou artística
  • tecnologias (propostas de uma aplicação ou solução digital)
Não há limite para o número de ideias a apresentar, cada autor é livre de expor tantas propostas quanto a sua imaginação permitir. As ideias devem ser apresentadas, em formato vídeo, durante os meses de Junho e Julho, através da página web http://www.criar20009.gov.pt/concurso
Aos autores das 10 ideias mais criativas será atribuído um Prémio pecuniário no valor de 1.000 Euros. O Júri do Concurso será integrado por personalidades relevantes na inovação criativa em Portugal.
Para mais informações sobre este concurso

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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Comunicar por imagens: perigo? desafio?

Apontamento acerca da questão da imagem na percepção e na comunicação, elaborado por Paulo Pinto - aluno do Curso de Estudos Artísticos e Culturais - a partir da participação no workshop dedidado ao tema da "Percepção, Leitura e Análise de Imagens".
Este texto foi publicado pelo Jornal Diário do Minho, em 23 de Junho de 2009, p. 8

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Criação do Núcleo dos Alunos de Estudos Artísticos e Cuturais da FacFil

Notícia da criação do Núcleo dos Alunos de Estudos Artísticos e Culturais publicada no Jornal Diário do Minho, de 23 de Junho de 2009, p. 5

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"Casas de Escritores no Minho"

Neste texto, Cândido Martins enaltece a publicação da Obra de Secundino Cunha, Casas de Escritores no Minho (fotografias de Sérgio Feitas), pondo em relevo o estimável valor patrimonial adstrito a estes Bens Culturais que são as Casas dos catorze escritores aqui evocados.
Originalmente publicado na Liminana - Revista de Informação, Cultura e Turismo (Lisboa, Ano II, nº 9, Outubro de 2008), este texto é um permanente convite à redescoberta da memória cultural na companhia de um punhado dos nossos melhores Escritores.

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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

"O Centro Cultural Vila Flor: desenvolvimento e sustentação cultural. 20 anos de gestação"

Com este título, José Bastos, aluno do Curso de Estudos Artísticos e Culturais e Director do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) de Guimarães, apresentou uma comunicação no Encontro realizado no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, dedicado ao tema da “Descentralização Cultural”.
No seu discurso claro e reflectido, J. Bastos propõe-se delinear o enquadramento que permite ao CCVF apresentar-se hoje, precisamente, como “case study” da descentralização cultural. Para isso, traça um olhar retrospectivo, identificando as grandes marcas dos últimos 20 anos nas quais se torna manifesta a consolidação de uma prática cultural que vem conquistando paulatinamente a Cidade de Guimarães. Num segundo momento, José Bastos abre-nos a janela prospectiva daquilo que entende dever ser a actividade cultural estruturada e “sustentada” na Cidade, tendo como motor a oferta cultural do CCVF mas não se esgotando nela. Se o leitor pensa que é chegado o momento da invasão dos números e dos cálculos financeiros, então está muito enganado; J. Bastos está profundamente convencido que um projecto cultural se ganha ou se perde não em função da ditadura abstracta dos números, mas em função daquilo que designaríamos por “efeitos sistémicos da arte e da criatividade” que a experiência estética traz ao mundo de cada um dos espectadores. Fazer com que cada vez mais espectadores sintam necessidade desses efeitos, parece ser o (excelente) caminho delineado por J. Bastos. Estará aí o segredo deste “caso”?
Um interessantíssimo depoimento a ler, a meditar, a comentar…


O Centro Cultural Vila Flor, desenvolvimento e sustentação cultural.
20 anos de gestação


O convite para falar do Centro Cultural Vila Flor como “case study” é uma enorme responsabilidade e obriga-me a recuar no tempo, considerando que aquilo que é hoje o Centro Cultural Vila Flor se alicerçou num trabalho persistente de cerca de 20 anos.
A partir dos anos 90 a cultura, no sentido de prática cultural no campo das artes performativas, assumiu em Guimarães um papel que até então era praticamente invisível.
Paulatinamente foram acontecendo actividades diversas, promovidas pela Câmara Municipal de Guimarães e por diversas associações do concelho. É no final da década de 80, princípio da década de 90 que têm início, de forma sustentada, actividades que perduram até hoje (Festivais Gil Vicente-1987; Encontros da Primavera-1990; Guimarães Jazz-1992). Estas iniciativas âncora permitiram o desenvolvimento de um conjunto de actividades de natureza artística, funcionando como suporte de credibilidade para uma programação tão regular e diversificada quanto possível.
Os constrangimentos a esta actividade eram enormes mas a dificuldade transformou-se em oportunidade. A inexistência de um espaço de programação, com as condições técnicas mínimas, fez com que a cidade se transformasse no espaço de programação (O Paço dos Duques de Bragança, o Castelo de Guimarães, as praças do Centro Histórico, as inúmeras e belíssimas igrejas, os cantos de cada recanto, tornaram-se espaços cénicos). Esta realidade fez com que o ritmo de programação fosse aumentando; a realização no espaço público aumentou a participação dos públicos; a vontade de fazer venceu a dificuldade. Os espaços foram sendo adaptados na medida do possível, os meios técnicos foram sendo adquiridos, a equipa de trabalho foi-se apaixonando pelo projecto, o poder político foi acreditando cada vez mais na generosidade do mesmo, o público foi exigindo mais e a bola de neve foi crescendo.
Com a recuperação do Centro Histórico, que levou a UNESCO a classificar Guimarães como Património Cultural da Humanidade, em 2001, tornou-se necessário e premente potenciar a vivência do centro histórico, evitando a sua utilização para actividades marginais. Assim nasceu o Verão Vale a Pena em Guimarães que consistia num ritmo frenético de programação e que rapidamente conquistou e alargou públicos. Conquistou desde logo o público residente que assistia “de camarote” aos espectáculos (em determinada altura do ano eram diários), conquistou o público que passou a frequentar o espaço numa óptica de ver o que se estava a passar e conquistou o público que estava ansioso por fruir música, teatro, dança, cinema.
Como tudo na vida, este ciclo de frenesim teve que inverter tendências, o espaço estava definitivamente conquistado na fruição cívica e sem riscos de retorno, os “donos dos camarotes” começavam a acusar cansaço.
Fruto de uma parceria da Câmara Municipal de Guimarães com a Universidade do Minho passou a existir, desde 1994, um espaço com condições razoáveis para a realização de programação artística. Finalmente existia em Guimarães um espaço para que permitia regularidade e coerência sem condicionalismos meteorológicos. Assim nasceu o Festival de Inverno (Janeiro a Março), primeira prática programática consistente e regular que permitiu iniciar hábitos de frequência sem interrupções temporais e saindo da trilogia Maio (Encontros da Primavera), Junho (Festivais Gil Vicente) e Novembro (Guimarães Jazz), isto para além da continuidade da programação em espaços não convencionais.
Passou a existir uma prática miscelânica na programação. Passou a ser possível acolher projectos que até então não passavam do sonho. Passou a ser possível fidelizar públicos que passaram a deslocar-se aos espaços de apresentação, passou a ser possível cobrar entradas nos espectáculos. Passou a ser possível exigir mais de nós próprios.
Tudo isto poderia ter acontecido de outra forma, poderiam ter sido feitas outras opções, mas a opção política foi a de definir a cultura como vector estratégico de desenvolvimento, crucial para o tão importante reforço da postura qualitativa e competitiva dos cidadãos e da cidade.
A política cultural foi estruturalmente concebida, de forma a reforçar e manter uma oferta qualificada e que ao mesmo tempo fosse capaz de atrair, formar e satisfazer diferentes segmentos da procura.
A autarquia teve como objectivo assegurar a preservação do património arquitectónico, cultural e histórico, infra-estruturas e equipamentos, assim como apoiar e incentivar as instituições e colectividades produtoras e promotoras de actividades na área da cultura. Desta forma pretendeu não só salvaguardar e divulgar as diferentes práticas culturais tradicionais, mas também dinamizar e potenciar o aparecimento de actividades e eventos com carácter inovador.
No que concerne às práticas culturais da população o grande objectivo foi a formação e a atracção de diferentes segmentos de público, onde se incluía, por um lado, a população residente, destacando-se destes os mais jovens e, por outro, os turistas e visitantes.
Atendendo à política traçada, os principais eixos estratégicos de intervenção tiveram por finalidade dar respostas aos desafios contemporâneos e às aspirações dos cidadãos, contribuindo para o desenvolvimento, valorização, afirmação e promoção da cidade.
Diversificar a oferta cultural de acordo com as exigências de um público com novos padrões de consumo cultural, de forma a qualificar Guimarães como espaço de cultura e lazer de qualidade foi um objectivo claro da política cultural da cidade. A promoção da imagem do concelho tem passado por isso pela aposta forte em eventos culturais de vanguarda e de qualidade, de que o Guimarães Jazz é o exemplo mais consolidado no calendário cultural de Guimarães.
A formação foi, desde muito cedo, uma presença assídua no panorama da programação cultural. Os Cursos Internacionais de Música, a Semana da Dança, a ODIT – Oficina Dramatúrgica de Interpretação Teatral que mais tarde deu origem ao Teatro Oficina, os ateliers, os colóquios, os debates, foram instituindo uma forma diferente de participar, foram fazendo com que o conceito de posse, de apropriação, estivesse cada vez mais presente.
O projecto cultural de Guimarães não era de ninguém, era de muitos.
A ODIT quando foi criada teve uma aceitação que ultrapassou em muito qualquer expectativa optimista (foram mais de 600 inscrições para fazer, no sentido de participar, teatro; inscrições de várias faixas etárias, sociais, económicas, culturais).
A esta enorme procura de formação descomprometida, de formação pelo prazer de experimentar, pelo prazer de conhecer, foi feita a opção mais difícil. Aceitar todas as inscrições, promover a experiência e ganhar tempo para repensar o projecto.
Aquilo que seria um projecto de teatro transformou-se num projecto que respondia aos desafios propostos, fez-se de tudo: teatro, dança, movimento, fotografia, cenografia, figurinos, desenho de som, desenho de luz, etc., etc.,etc.
Todas estas dinâmicas levavam, de forma crescente, à constatação clara da inexistência de espaços para resposta a tudo. A Oficina foi crescendo, foi conquistando espaços no Palácio Vila Flor, de sala em sala ficou com praticamente todo o espaço, foi adaptando, inventando, recriando, dando novas funcionalidades, novas utilizações.
Mas a dinâmica continuava sem ser correspondida com condições físicas. A Oficina adquiriu um armazém com cerca de 700m2 e, sem capacidade para realizar de imediato as obras de beneficiação, utilizou-o assim mesmo, inventando soluções. Só em 2004 as obras ficaram concluídas e o espaço passou a funcionar como local de residência do Teatro Oficina e como mais um local de apresentação de espectáculos.
Nesta altura já se vislumbrava no horizonte o sonho de muitos anos – a construção do Centro Cultural Vila Flor – após ousada decisão do Presidente da Câmara que reagiu ao rasgar de contrato de financiamento, por parte do estado, com a decisão de avançar sozinho para um projecto de dimensão regional que 18 meses e 15 milhões de euros depois foi inaugurado ( a 17 de Setembro de 2005).
Entretanto, em finais de 2003, a Câmara Municipal de Guimarães assina um protocolo de colaboração com a Oficina transferindo para esta a responsabilidade de programar os principais eventos culturais que até então assumia por si própria em parceria com diversas instituições mantendo, no entanto, os parceiros originais de cada projecto.
Estes quase dois anos em que a Oficina assumiu a responsabilidade de programar, de acordo com a estratégia definida e com o objectivo claro de iniciar um trabalho que pudesse ser capitalizado por quem viesse a gerir o Centro Cultural Vila Flor.
Estes dois anos foram determinantes para que a Câmara Municipal de Guimarães decidisse que seria a própria Oficina a capitalizar o trabalho desenvolvido e entregou-lhe o desafio de gerir o CCVF.
O capital adquirido foi determinante para a Oficina ter a capacidade de aceitar o desafio, reestruturando-se e assumindo a abertura e funcionamento do espaço sem constrangimentos de maior e com eficácia, passe a imodéstia.
O Centro Cultural Vila Flor passa a ser uma realidade pela força de um trabalho de muitos durante muitos anos, resulta de uma inevitabilidade latente, de uma asfixia existente e de uma falta de soluções para que o projecto pudesse crescer. A vontade, a exigência, a necessidade de crescer pressionavam demasiado a camisa de forças que aprisionava o projecto.
O Ministério da Cultura apoiava financeiramente o primeiro ano de funcionamento, ou os dois primeiros, dos espaços que tivessem sido comparticipados pelo estado para a construção.
Como o estado tinha rasgado o contrato de financiamento para a construção do CCVF também não pode aceder ao financiamento para o arranque do seu funcionamento.
Felizmente a visão de quem decidiu construir o espaço é suficientemente ampla para perceber que um espaço com as características do CCVF e com a missão que a CMG lhe atribui, apenas pode funcionar com um financiamento claro e significativo. Foi assim que aconteceu e acontece.
Com quase quatro anos de funcionamento ainda é prematuro fazer balanços que extravasem o estafado esgrimir de números, até porque, sendo importantes, não podem qualificar ou desqualificar, só por si, o alcance do trabalho desenvolvido.
Como quase nada acontece por acaso, Guimarães terá um enorme desafio, que estou convicto transformará em oportunidade. Ser Capital Europeia da Cultura em 2012. Quem de direito na altura certa dirá o que vai ser a Capital Europeia da Cultura em 2012, quem de direito e na altura certa, ou seja todos nós, fará a avaliação do que foi.
Tenho dado particular ênfase à programação cultural, às artes performativas, pela proximidade que tive e tenho neste âmbito, mas não é possível deixar de referir outras iniciativas de grande importância para a consolidação do projecto cultural de Guimarães. A Biblioteca Municipal Raul Brandão, o Arquivo Alfredo Pimenta, o Museu de Alberto Sampaio, a Sociedade Martins Sarmento, as diversas Associações Culturais, todos tiveram um importante papel na construção daquilo que é hoje um projecto cultural abrangente e assumido por muitos como crucial para o desenvolvimento próximo e longínquo.
Deixando a história de lado, passaria a uma reflexão sobre a necessária sustentação de um projecto cultural.
Falar sobre sustentação cultural abre um conjunto de caminhos imensamente sinuosos e plenos de encruzilhadas.
Divagar sobre a cultura é um exercício que procurarei fazer, sem pretensiosismo nem certezas inabaláveis, mas com convicções que a realidade quotidiana se encarrega de questionar repetidamente.
Desde logo, surge o questionamento basilar acerca do que é a cultura; acerca do que se fala quando se fala de cultura; acerca da comunicação que se estabelece entre emissor e receptor quando a palavra soa. Cultura significa exactamente o quê? Aquilo que está imanente nos conceitos de quem diz? Ou aquilo que significa em função dos códigos de quem ouve?
No meio da encruzilhada avanço em várias direcções e volto sempre atrás em busca do caminho inexistente da totalidade.
Na perspectiva humanística da definição de cultura, e na utopia da universalidade da erudição globalizada, a cultura aparece como uma característica inerente a cada indivíduo e perfeitamente diferenciada de outro. Isto porque a cultura, neste sentido, resulta de um vasto conjunto de conhecimentos assimilados, independentemente da sua natureza temática, permitindo afirmar que dois indivíduos de elevada erudição pouco têm em comum no que concerne à sua cultura.
Nesta medida, apesar de reducionista, a cultura não poderá nunca ser uma característica intrínseca de um povo, de uma região ou de uma vivência. No limite haveria tantas culturas como indivíduos e a palavra cultura, enquanto elemento de significação objectiva deixaria de ter sentido.
Cada vez mais aquilo que diferencia e que assume um registo de marca indelével de uma cultura terá tendência para se esbater em consequência da normalização a que todos são conduzidos na busca de uma aceitação individual e colectiva; na busca dos modelos que as culturas mais fortes impõem como referenciais e indiscutíveis e funcionando como castradores da manutenção das culturas e castradores do aparecimento de novas culturas. Em suma poderá correr-se o risco da existência globalizada de uma aculturação, imposta pelas culturas predominantes que apagam as características intrínsecas doutras culturas que consideram fora dos cânones que estabeleceram para si próprios.
Posto isto, questiono-me acerca do que será feito da cultura como conjunto de características que permitam agrupar um conjunto alargado de indivíduos em função do que de comum possuem como prática vivencial em resultado dos hábitos e práticas adquiridas ao longo dos tempos.
Porventura passaremos a ter uma cultura universalista e sem características suficientemente fortes e marcantes para que se possam diferenciar.
Ultrapassado este exercício especulativo, e considerando que a sustentação cultural de um projecto cultural se mede pela sua capacidade em contribuir para o crescimento do indivíduo nas várias dimensões da sua vivência, urge falar dos princípios que darão sustentabilidade a um qualquer projecto cultural.
A primeira abordagem, sem conseguir abandonar por completo a abordagem especulativa, situa-se ao nível da utopia no que concerne ao âmbito dos fruidores das propostas que uma programação artística disponibiliza. Citando de cor a directora do Teatro Municipal de Bragança, Helena Genésio, quando questionada sobre o pretenso elitismo da sua programação, diria que se elitismo significa qualidade, desejo elitismo para todos.
Perseguindo o desiderato desta contradição, procura-se a sustentação cultural através do objectivo traçado para prossecução de uma missão.
No Centro Cultural Vila Flor, local onde desempenho funções, procuramos a sustentação cultural pela presença da convicção do trabalho desenvolvido no campo da programação e da criação artística. Procurar sustentabilidade significa disponibilizar propostas artísticas de forma regular e com abrangência de área e género. Sustentabilidade significa que o programador está munido de convicções e de conhecimentos para executar a tarefa em apreço, significa que o programador é um mediador entre o objecto artístico e o público, significa que o programador está ao serviço da mediação e não se serve dela para outros fins que não o de tentar utilizar os recursos disponíveis para aproximar e colocar em diálogo o sujeito (público) e o objecto. A adequação da programação, em função do conhecimento e interpretação do território, potencia a sustentação do projecto, consolidando relações e favorecendo a apropriação. Sustentação programática é dar primazia ao objecto artístico, em detrimento de lógicas meramente economicistas ou numéricas. Sustentação é propiciar uma proximidade relacional entre o público e a arte.
Sustentação é formação; é criação, é diálogo, é divergência; é convergência; é ter opinião; é fazer opinião; é ouvir; é não hesitar; é avançar humildemente; é recuar orgulhosamente; é gerir tensões; é ousar.
Sustentação é elevação.
Sustentação é tudo isto e muito mais, desde que utilizado como veículo e como forma de veicular a aproximação do público às artes e à cultura no seu conceito mais humanista – ao serviço do homem.
Sustentação é, ainda, dar condições para que todos possam ter acesso a um exercício de cidadania pleno e é neste pressuposto de exercício de cidadania que é fundamental o papel desempenhado pelos serviços educativos como forma de combater a castração criativa que o modelo de ensino provoca nos jovens.
A formatação do ensino nas escolas coarcta a notável capacidade criativa das crianças que conseguem, simultaneamente, viver num mundo real sem deixarem de ter a sua existência vivencial num mundo imaginário, sem formatações prévias e com uma enorme liberdade de pensamento criativo, porque não sujeito às normalizações que os adultos ainda não conseguiram, vitoriosamente, introduzir.
A necessidade da comparação com os outros, a necessidade da perfeição, a definição de um padrão apresentado como normal, leva aquilo que a sociologia define como institucionalização resultante da habituação, resultante da socialização primária.
Assim, desde muito cedo, a escola e as famílias procuram institucionalizar as crianças, certos que essa é a melhor forma de garantir o seu desenvolvimento mais adequado e esquecendo-se que, dessa forma, estão a restringir o crescimento de cada um ao seu ritmo e de acordo com liberdade criativa que existe, em potência, nas crianças.
Os serviços educativos devem perseguir o objectivo de institucionalizar o espaço para a criatividade, o espaço para o crescimento diferenciado.
As artes são um contributo fundamental para tal.
Quase para terminar cito Jean Piaget:
“ O essencial é que, para que uma criança entenda, deve construir ela mesma, deve reinventar. Cada vez que ensinamos algo a uma criança estamos a impedir que ela descubra por si mesma. Por outro lado, aquilo que permitimos que descubra por si mesma, permanecerá com ela”(Piaget, 1998).
Cito também Carlos Drummond de Andrade, que num artigo publicado no Jornal do Brasil em 1974, já abordava a questão da criatividade como elemento essencial para o desenvolvimento equilibrado:
A Educação do ser poético
“Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo? Será a poesia um estado de infância relacionada com a necessidade de jogo, a ausência de conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos de viver – estado de pureza da mente, em suma?
Acho que é um pouco de tudo isso, se ela encontra expressão cândida na meninice, pode expandir-se pelo tempo afora, conciliada com a experiência, o senso crítico, a consciência estética dos que compõem ou absorvem poesia.
Mas, se o adulto, na maioria dos casos, perde essa comunhão com a poesia, não estará na escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai fenecendo, à proporção que o estudo sistemático se desenvolve, ate desaparecer no homem feito e preparado supostamente para a vida?
Receio que sim. A escola enche o menino de matemática, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, fazê-lo através da poesia da matemática, da geografia, da linguagem. A escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo.
Sei que se consome poesia nas salas de aula, que se decoram versos e se estimulam pequenas declamadoras, mas será isso cultivar o núcleo poético da pessoa humana?
Oh, afastem, por favor, a suspeita de que estou acalentando a intenção criminosa de formar milhões de poetinhas nos bancos da escola maternal e do curso primário. Não pretendo nada disto, e acho mesmo que o uso da escrita poética na idade adulta costuma degenerar em abuso que nada tem a ver com a poesia. Fazem-se demasiados versos vazios daquela centelha que distingue uma linha de poesia, de uma linha de prosa, ambas preenchidas com palavras da mesma língua, da mesma época, do mesmo grupo cultural, mas tão diferentes.
Se há inflação de poetas significantes, faltam amadores de poesia – e amar a poesia é forma de praticá-la, recriando-a. O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão directa das coisas e, depois, como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética.
Não seria talvez despropositado cuidar de uma extensão poética das escolinhas de arte, esta ideia maravilhosa que Augusto Rodrigues tirou de sua formação humana de artista para a realidade brasileira. Longe de ser uma fábrica alarmante de versejadores infantis, essa extensão, curso ou actividade autónoma, ou que nome lhe coubesse, daria à criança condições de expressar sua maneira de ver e curtir a relação poética entre o ser e as coisas. Projecto de educação para a poesia (fala-se hoje em educação artística no ensino médio, quando o mais razoável seria dizer educação pela arte). A vocação poética teria aí uma largada franca, as experiências criativas gozariam de clima favorável sem que tal importasse na obrigação de alcançar resultados concretos mensuráveis em nível escolar. Sei de casos em que um engenheiro, por exemplo, aos 30, 40 anos, descobre a existência da poesia... Não poderia tê-la descoberto mais cedo, encontrando-a em si mesmo, quando ela se manifestava em brinquedos, improvisações aparentemente absurdas, rabiscos, achados verbais, exclamações, gestos gratuitos?
Alguma coisa que se bolasse nesse sentido, no campo da Educação, valeria como correctivo prévio da aridez com que se costuma transcrever os destinos profissionais, murados na especialização, na ignorância do prazer estético, na tristeza de encarar a vida como dever pontilhado de tédio. E a arte, como a educação e tudo o mais, que fim mais alto pode ter em mira senão este, de contribuir para a educação do ser humano à vida, o que, numa palavra, se chama felicidade?”(Andrade, 1974)
Esta questão mantém hoje uma grande actualidade, atendendo ao facto da escola continuar a não responder a uma necessidade primordial das crianças e que os Teatros, Centros Culturais, Fundações e outras estruturas ligadas às artes estão, felizmente, cada vez mais a assegurar.
Importa referir que toda a sustentação, de qualquer projecto cultural, apenas pode acontecer se cimentada numa visão política e estratégica de quem tem o poder decisório. Só um poder sustentadamente estratégico e convictamente esclarecido consegue dar condições para que se cumpra o serviço público, sem interferências casuísticas a propósito deste ou daquele interesse, com uma cumplicidade partilhada no que concerne a duas questões essenciais: o conhecimento do ponto de partida e a partilha do objectivo de chegada.
Muito Obrigado.

Bibliografia
Andrade, C. D. (1974). A educação do ser poético. Jornal do Brasil .
Piaget, J. (1998). A Psicologia da Criança. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
José Bastos / Figueira da Foz, 1 de Junho de 2009

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Sábado, 20 de Junho de 2009

Cultura e desenvolvimento

Ligar a arte à economia, à inovação e ao turismo – eis uma fórmula que muito contribui para o desenvolvimento integrado e sustentado de uma região: promove a cultura, provoca a valorização humana, o crescimento económico, o enriquecimento territorial. Porém, os próprios economistas sabem que nestas matérias, antes e depois dos cálculos, está algo que, articulando num todo os elementos da fórmula, garantem o êxito. Chamemos-lhe o conceito galvanizador, a boa ideia.

in: JL - Jornal das Letras, Artes e Ideias, nº 1010, 17-30 de Junho de 2009

Temos de concordar que a ideia congeminada por Guta Guedes para o “Programa Allgarve” não poderia ser mais cristalina: Tão brilhante como o sol. É caso para dizer que Hegel tinha razão: o segredo está mesmo na Ideia. O resto vem naturalmente do poder intrínseco da cultura, como o prova a entrevista da directora da “Experimenta Design”.

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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Programas de financiamento e de incentivos para a área cultural

Para todos os agentes que trabalham do sector cultural:
Sessões de esclarecimento e de divulgação dos programas de apoio ao financiamento de projectos culturais e de incentivos ao empreendedorismo cultural.
A participação nas sessões é gratuita mas a inscrição é obrigatória, limitada à lotação dos espaços.
Datas, horários, locais e conteúdos destas sessões: no site do Gpeari/Ministério da Cultura.

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Sábado, 13 de Junho de 2009

“A expressão mítica dos afectos” - Colóquio de interesse para os EACs, na FacFil

É com muita satisfação que divulgamos o Colóquio dedicado ao tema “A expressão mítica dos afectos” a realizar no próximo dia 16 de Junho de 2009, na Aula Magna da Faculdade de Filosofia (UCP/Braga).
Este colóquio, coordenado pela Profª Ana Paula Pinto, pretende analisar algumas das mais importantes narrativas mítico-históricas relacionadas com o tema "amor-amizade", tanto na perspectiva da Literatura, como da Psicologia.
Tratando-se de uma temática eminentemente interdisciplinar interessa, particularmente, aos estudantes e licenciados em Estudos Artísticos e Culturais, até pela presença que neste Curso têm determinadas matérias, tais como: Cultura Clássica, História da Arte, Estética, Antropologia Cultural, Psicologia da Arte.
A frequência neste Colóquio confere direito a Certificado de participação.
Mais informações, Programa e Folheto de inscrição
imagem do cartaz do Colóquio

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Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Aluno de EACs participou em debate sobre "Descentralização da Cultura"

José Bastos, aluno do Curso de Estudos Artísticos e Culturais, foi um dos oradores convidados a participar no debate sobre a temática da "Descentralização da Cultura". Este encontro teve lugar na Figueira da Foz, integrado nas comemorações do 7º aniversário do Centro de Artes e Espectáculos daquela Cidade. Na qualidade de Director do Centro Cultural de Vila Flor (Guimarães), José Bastos teve como interlocutores figuras de relevo do sector cultural nacional. Ver desenvolvimento no Jornal Diário de Coimbra online.

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Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

"Vinte Horas de Liteira" de Camilo: uma salutar "insónia"

Transcrevemos a reacção de um leitor à "Noite de insónia" na qual se debateu o texto de Camilo Vinte Horas de Liteira, bem como o comentário do responsável por aquela iniciativa:

Positivamente tocado pela escolha que Cândido Martins fez do texto de Camilo Vinte Horas de Liteira para a sua segunda “Noite de Insónia”, e apesar de nela não ter podido participar, desejo deixar um breve apontamento acerca da razão do apreço que nutro por esta obra.
Antes de mais, para mim, "Vinte Horas de Liteira" representa a condição programática da estética da criação de Camilo, a qual vem sendo formulada desde o seu primeiro romance, "Anátema". É através do seu alter-ego António Joaquim (personagem que aparece em romances como o "Sangue" e "Doze Casamentos Felizes") que o auto-narrador expõe as grandes questões estéticas, tais como a condição do ser-artista, o papel dos editores perante o escritor, o emergir do tema perante o escritor, as relações do criador com o leitor, o papel da literatura perante a problemática do fingimento e perante os valores morais, o papel da imaginação e da memória no acto de geração da obra de arte.
Entremeadas nestas temáticas, surge na obra também uma certa fenomenologia do amor moldando os vários tipos humanos, espraiados numa multiplicidade de histórias às quais acedemos através da já referida figura de António Joaquim.
Neste contexto ganha fôlego a reflexão que Camilo empresta à poesia, ao papel dos folhetinistas (os quais, depois, dão em políticos), às paixões, aos costumes, ou a relação entre as personagens.
Outros temas e outras preciosidades subsistem nesta obra de Camilo Castelo-Branco. Porém, esta breve ponta aqui levantada já mostra, na nossa perspectiva, a atenção que ela merece.
Amadeu Gonçalves, Antigo Aluno da Faculdade de Filosofia
Comentário do Prof. Cândido Martins:
Obrigado pelo pertinente e interessado comentário. Estes tópicos que menciona foram algumas das ideias partilhadas pelos presentes na última sessão da Comunidade de Leitores "Noites de Insónia", na Casa de Camilo. Com efeito, "Vinte Horas de Liteira" singulariza-se por ser uma história cuja organização é determinada por múltiplas reflexões metanarrativas, de variada temática. Através do estratagema do diálogo constante entre o narrador-autor e a personagem de António Joaquim, Camilo conta um sedutor conjunto de pequenas histórias, ao mesmo tempo que apresenta uma espécie de poética da sua ficção, embora de forma dispersa, mas não menos interessante. Uma das leituras possíveis é que assistimos ao diálogo crítico e auto-crítico de Camilo com ele próprio (muitas vezes em cativante regime de ironia e de auto-paródia), através desta interposta personagem. Deste modo, António Joaquim pode ser visto como um espelho diante do qual Camilo desnuda os seus processos ficcionais e a sua concepção de arte literária e do papel do artista-escritor. Em suma, o leitor vai assistindo à reflexão constante do narrador-autor em torno da construção da própria narrativa, por um lado; e por outro, ao pensamento sobre o papel da literatura e o lugar do escritor, por outro. Tudo isto faz de "Vinte Horas de Liteira" uma obra central na produção literária de Camilo Castelo Branco, isto é, uma escrita que se pensa a si própria, num constante exercício de auto-crítica estética.
Cândido Oliveira Martins

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Domingo, 31 de Maio de 2009

A cultura da solidariedade num testemunho genuíno

Filomena Fonseca, aluna do Curso de Estudos Artísticos e Culturais, presta serviços como voluntária e coordenadora na área hospitalar.
Já lhe conhecíamos o seu amor pela beleza. Agora ficamos a conhecer a beleza do amor que dedica aos outros. Haverá sentido mais profundo para a cultura do que o de cuidar gratuitamente da humanidade?
(para ampliar clique nas imagens)

(fonte: Revista da Liga dos Amigos do Hospital de Santo Tirso, nº 22, Dezembro de 2008)

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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Professor de EACs anima “Noites de insónia”

Cândido Martins é o dinamizador de uma Comunidade de Leitores, que se reúne mensalmente na Casa-Museu de Camilo, em S. Miguel de Seide, para melhor conhecer e fruir a obra de Camilo.
A iniciativa partiu do Centro de Estudos Camilianos, com o patrocínio da Câmara Municipal de Famalicão e realizar-se á ao longo de 2009.
Este docente da Universidade Católica garante que o imaginário camiliano desencadeia este efeito: “ninguém prega olho”.
Apesar de congregar já um número variado de pessoas, aquela comunidade está aberta a novas inscrições. Fica o convite especialmente dirigido aos estudantes (antigos e actuais) de EACs.
Toda a grande arte nos diz respeito.

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B. Brecht em destaque nos "Festivais Gil Vicente" - Uma reflexão

Numa temporada fértil de produção teatral brechtiana, que se repercutiu na programação teatral do Centro Cultural Vila Flor (Guimarães) através da apresentação de "A Mãe", da apresentação de "Tambores na Noite" e que se vai repercutir na apresentação de "A Resistível Ascensão de Arturo Ui" no âmbito dos Festivais Gil Vicente, a estética de Brecht surge como mote para uma reflexão que a programação dos Festivais Gil Vicente proocurará suscitar junto dos espectadores.

A teorização estético-teatral de Brecht obriga a uma reflexão sobre a sua eventual actualidade, sobre a sua aplicabilidade nos tempos modernos e sobre a sua adequação, tendo em vista as alterações na percepção e na sensibilidade do indivíduo contemporâneo, fruto das modificações no âmbito do horizonte de expectativas dos espectadores e na sua relação com a espectacularidade.
Hoje, o contexto histórico-social, histórico-político e mesmo histórico-económico apresenta divergências marcantes em relação ao período Brechtiano.
No entanto, a teoria deste encenador alemão é incontornável, salvaguardando as diferenças resultantes das novas realidades sectoriais e resultantes da evolução da estética teatral.
Torna-se difícil pensar num teatro contemporâneo sem pensar na inquietude que o mesmo deve provocar, sem pensar no teatro como forma e como espaço de reflexão sobre as questões mais diversas. Hoje não se falará de teatro sem que nesse teatro o espectador tenha um papel preponderante de relacionamento com a cena teatral.
Neste teatro, não há uma preponderância do espectador ou da cena teatral, estes completam-se, confrontam-se, dialogam e unificam-se. Cada um dá aquilo que possui, disponibiliza as suas características intrínsecas, expõe-se à vivência e entrega-se à percepção ou permite-se ser percepcionado.
Em Brecht, como hoje, a arte teatral não é compreendida apenas como a diversidade dos princípios e técnicas característicos de uma arte, mas tem responsabilidades pedagógicas, tem responsabilidades que ultrapassam o entretenimento, abrindo o espectador para a reflexão sobre o mundo em que vive e, consequentemente, para o seu desenvolvimento enquanto elemento participante na cidadania. Por outro lado o espectador tem, também, responsabilidades, tem responsabilidades na descodificação da mensagem imanente da obra, tem responsabilidades de permissão para que a obra se manifeste, ganhando uma dimensão que por si só não possui, precisando do espectador para ser, para se transformar, para se revelar, para se dar em plenitude.
À semelhança da máxima de Brecht - “Estranhar o que é comum, e achar normal o que é estranho” - a obra cénica a ser encenada e o segmento social a ser escolhido, actuando sobre a contemporaneidade, devem considerar a sociedade e a sua crescente mediatização; devem considerar a cada vez maior perda de padrões educativos e éticos que são, cada vez mais, substituídos por padrões de entretenimento e de estimulação sensorial pura. A cultura de massas, o consumo global, a Internet e a multiplicidade de redes sociais e de sociabilização são factores que devem ser considerados na abordagem estética teatral, de forma a despertar consciências e de forma a contrariar a massificação do gosto acrítico e superficial daquilo que é dado de forma imediatista aos sentidos, sem que o processo de experiência estética aconteça; sem que o espectador o seja de facto; sem que a cena teatral não ultrapasse essa singela qualidade.
O Teatro deve comprometer e comprometer-se.
Mikel Dufrenne dizia: “O objecto estético só me pertence verdadeiramente se eu lhe pertencer”.

Texto elaborado por José Bastos, aluno do Curso de Estudos Artísticos e Culturais / Director Artístico do Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)

José Bastos (EACs) e Francisca Araújo (Vereadora da cultura da CM Guimarães na apresentação dos Festivais Gil Vicente 2009 /Foto: Jornal Diário do Minho, 23 de Maio de 2009

Programação dos Festivais Gil Vicente: clicar aqui

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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Workshop "Percepção, leitura e análise de imagens" na FacFil

- Workshop sobre "Percepção, leitura e análise de imagens"
- Orientado por Maria Adriana Baptista / Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto
- Data: 29 Maio 09, 14.30h-18.00h
- Na Aula Magna da Universidade Católica - Faculdade de Filosofia
- Entrada livre
Mais informações

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Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Viajar com… Tomaz de Figueiredo: um clássico da literatura portuguesa

Texto elaborado por Cândido Oliveira Martins* para a apresentação da obra Viajar com Tomaz de Figueiredo (Porto, Caixotim / Ministério da Cultura, 2008), na Casa de Casares, Arcos de Valdevez.

1. Apresentação inicial
Mandam as elementares regras de cortesia saudar os anfitriões desta casa (Srª D. Maria Antónia de Figueiredo e Sr. Dr. Santos Loureiro), bem como os demais convidados deste evento. De entre os presentes, permitam-me destacar três figuras institucionalmente envolvidas neste louvável projecto editorial: a Srª Drª Helena Gil, Directora do Ministério da Cultura para a região Norte; e o Sr. Paulo Samuel, editor da Caixotim, co-editores da obra; bem como o Sr. Presidente da Câmara Municipal dos Arcos de Valdevez, Dr. Francisco Rodrigues Araújo, entidade apoiante da edição. Um bonito livro como este dispensa qualquer apresentação, pois fala por si mesmo, através da palavra eloquente de vários autores e da impressiva fotografia de António Pinto. A fazer-se algum tipo de intervenção no seu lançamento, deveria ela ser confiada a um especialista na obra de Tomaz de Figueiredo, que obviamente não sou; ou ainda a descendentes directos, pela riqueza da memória e dos testemunhos vivos que nos podem partilhar.
Apesar desta ressalva, cumprindo a função de que, por simpatia, me incumbiram; e tentando fazê-lo do modo mais competente, creio que o momento é adequado para três considerações rápidas, a pretexto desta obra e do escritor que aqui nos convoca: primeiro, sublinhar a pertinência do conceito que está por detrás deste projecto editorial; segundo, salientar as mais notórias qualidades desta obra que acaba de ser publicada; e terceiro, reiterar a singularidade do autor que a todos nos congrega neste agradável momento de convívio; e ainda para concluir a valência deste tipo de roteiro do ponto de vista literário e educacional, mas também turístico e cultural.

2. Conceito: “Viajar com… os caminhos da literatura”

Esta obra insere-se num projecto da responsabilidade da Direcção Regional da Cultura do Norte (DRCN) do Ministério da Cultura, presidida pela Srª Drª Helena Gil, assessorada pelo Dr. João Luís Sequeira Rodrigues. E surge na sequência de sedutoras experiências, que muitos de nós já experimentámos algum dia – viajar fisicamente pelos espaços habitados ou descritos na obra de um escritor, em passeios e itinerários, de natureza cultural, memorialística e sentimental.
Como bem explicitado no conceito que lhes está subjacente, nestes roteiros literários e culturais, pretende-se viajar com e pelos caminhos da literatura. Viajar pelo património paisagístico, histórico, imaterial que nos rodeia, através do olhar privilegiado dos escritores que aí viveram, escreveram, amaram e morreram.
Viajar com os escritores é um modo de vivificarmos as nossas raízes históricas, culturais, literárias e linguísticas. Viajar com a literatura é, assim, uma forma ímpar de conhecimento e de fruição; um modo de enriquecer o nosso imaginário colectivo e de solidificar o sentimento identitário enquanto povo (1).
Esta ideia feliz da DRCN – de nos propor viagens pela mão experimentada e luminosa dos escritores como Tomaz de Figueiredo – materializou-se numa metodologia eficaz que preside à estrutura de cada um destes atraentes roteiros – introdutoriamente, uma sintética apresentação do homem e do escritor, em rápidas considerações contextuais e cronológicas. Logo de seguida, destacam-se três secções intimamente articuladas: i) a valorização dos espaços de inspiração em que cada autor nasceu, viveu e morreu, isto é, os espaços que naturalmente moldaram a germinação da sua obra, desde o local de nascimento aos lugares de convívio e de trabalho; ii) os espaços que se projectam directamente na topografia literária de cada escritor, através de descrições ou impressões que nos permitem uma sedutora viagem; iii) nas entrelinhas da vida e da escrita de cada escritor, é possível destacar uma ou mais facetas marcantes da sua criação.
Deste modo, procura-se associar, de forma dinâmica e incentivadora, a literatura de vários escritores ao conhecimento e à valorização do património da região nortenha, seja ele histórico, paisagístico, imaterial, gastronómico, etc.. Isso mesmo acontece com a obra extensa do autor do romance A Toca do Lobo.
O Alto-Minho é o chão do escritor hoje evocado. Por conseguinte, o pensamento que está subjacente a este conceito e projecto é o da relação umbilical do homem com a terra – no caso presente, Arcos de Valdevez, “terra do [seu] coração”, como lhe chamou Tomaz de Figueiredo. Por isso, nos decassílabos brancos e heróicos de Viagens no Meu Reino (1968) – longo poema narrativo dedicado ao fraterno amigo e poeta Fausto José – Tomaz de Figueiredo evoca sentidamente um longo itinerário, entre um turbilhão de memórias, de ambientes, de cenários e de personagens:
Fausto, vais passear no Rio Vez,
O meu rio, aquele que embalou
A meus amores, meus versos e meus barcos,
E não Letes, mas Rio da Lembrança,
Rio do Eterno, Rio da Saudade,
Rio da Poesia que estrebucha
Em mim
Para quem não tem notícia, convém lembrar que este projecto editorial teve uma 1ª série de livros, num total de 10, com assinalável sucesso público. Isso constituiu razão mais do que válida para que a DRCN e a editora Caixotim apostassem na continuação do projecto editorial, avançando para uma 2ª série de roteiros, iniciada com o livro Viajar com… Pina de Morais.
Entretanto, nesta nova série, já foram publicados roteiros semelhantes sobre António Nobre, Domingos Monteiro e o presente Tomaz de Figueiredo. Aguardam-se os esperados volumes sobre António Feijó, Pedro Homem de Melo e Raul Brandão.
E não será difícil acrescentar mais alguns escritores do Norte de Portugal, a fim de perfazer uma dezena para esta 2ª série. Arriscaria mesmo, a título pessoal, sugerir alguns nomes e diferentes épocas e de distinta geografia nortenha – por exemplo, um ou dois dourienses, um alto-minhoto e um transmontano.
Concretizando, a apenas a título de exemplo: Eugénio de Andrade, poeta contemporâneo ligado ao Porto; ou Agustina Bessa-Luís (natural de Vila Meã, Amarante); Francisco Teixeira de Queirós, o Bento Moreno, contemporâneo de Camilo e de Eça de Queirós (natural dos Arcos de Valdevez); e António Cabral (natural de Castedo do Douro, concelho de Alijó, Vila Real, recentemente falecido). Todos eles possuem obra extensa, de valor estético reconhecido e intimamente ligada à região em que viveram. Mas outros há, dignos de um roteiro semelhante: António Pedro, Luís Forjaz Trigueiros; Ruben A.; António Correia de Oliveira; João Verde, entre outros.

3. Obra: Viajar com… Tomaz de Figueiredo

Amplamente ilustrada pela mão da designer gráfica Helena Lobo, o texto desta obra é escrito a seis mãos, pois nos surge assinado pelo Sr. Dr. João Bigotte Chorão, Srª D. Maria Antónia Figueiredo (filha do escritor) e pela Srª DrªAlbertina Fernandes.
Dentro dos limites de um roteiro literário desta natureza, a obra introduz-nos na época e na atmosfera em que o escritor viveu; insere-nos visualmente na paisagem deste denodado autor, nas suas obsessões temáticas, na fulgurância do seu espírito.
Deve-se afirmar, desde já, que se trata de uma obra atraente e exemplarmente bem escrita. Com efeito, Viajar com... Tomaz de Figueiredo é um belo e sugestivo convite à viagem pelos meandros do escritor e da sua obra, num amplo sentido do termo “viagem”:
i) viagem pelas suas paisagens geográficas e afectivas (cores, sons, cheiros, atmosferas, paixões, passatempos), por aqueles espaços que o inspiraram e naturalmente se projectaram na sua escrita impressiva e visualista;
ii) por isso mesmo, é também uma viagem pela sua escrita (poética, narrativa, teatral, etc.), redescobrindo o prazer e o proveito da leitura de trechos das suas obras;
iii) é ainda uma saborosa viagem pela língua portuguesa, tão amada pelo autor, na conhecida veneração pelo idioma pátrio e pela sua riqueza (nem outra coisa se poderia esperar no autor do ímpar Dicionário Falado, escritor de genealogia camiliana ou aquiliniana);
iv) finalmente é uma viagem ao interior de si mesmo, por parte de quem aceita encetar este tipo de roteiro, físico-geográfico ou apenas mental, enriquecendo a viagem da nossa existência.
Não se pense, apressada e redutoramente, que, perante a obra de Tomaz de Figueiredo, estamos apenas perante um escritor regional ou uma literatura regionalista. Bem pelo contrário: quanto mais genuinamente local e quanto mais intensamente humana, mais universal se torna essa obra. Não lembrava Miguel Torga que o universal é o local sem paredes? Isto aplica-se inteiramente a Tomaz de Figueiredo, escritor polígrafo e exigente, que não pactuava com facilitismos nem modismos; muito menos com compadrios e autopropagandas.
Ora, este roteiro literário tem o grande mérito de nos convidar à viagem e à fruição por uma obra admirável, enraizada nesta terra, uma obra ainda por descobrir em toda a sua grandeza.
Trata-se de uma obra que nos aparece polarizada entre o pícaro e o elegíaco, entre a mais satírica truculência e a mais lírica sensibilidade, ora usando o chicote da sátira contundente e impiedosa, não poupando no retrato e na denúncia de mazelas privadas e públicas; ora se mostrando um escritor perpassado de nostálgica saudade e de comovente ternura;
Enfim, o leitor de Tomaz de Figueiredo confronta-se com uma obra singularizada por uma escrita de múltiplos registos, mas sempre de apurado rigor estilístico, entrelaçando um temperamento romântico com uma vigiada disciplina clássica, pois se trata de uma expressão enformada pela leitura dos mestres clássicos (como o admirado António Vieira), bem como pela audição do precioso e castiço linguajar do povo.
É neste espírito memorialístico que a leitura de um autor como Tomaz de Figueiredo é sempre uma revisitação apaixonada, contrariando a inevitável erosão do tempo e da memória. Recorde-se, por exemplo, o conhecido soneto “Adeuses” de Poesia II:
Casa à beira do Vez - quem tem, sem ter -
onde passava noites à lareira,
jogando a bisca ou Vieira a ler,
chorando, às vezes... com a fumaceira...
Casa onde via bagos lourescer
e escrevia aos olores da laranjeira,
onde cuidou em paz vir a morrer
ao embalo da fonte cantadeira...
Casa do Amor, do Sonho e da Lembrança,
do Sempre e das Meninas Tias Velhas,
de falsos com fantasmas, cacaréus...
Casa das tropelias de criança
e que não mais há-de abrigá-lo às telhas,
Casa de Avós, perdida casa: – Adeus!

4. Autor: Tomaz de Figueiredo

Tudo isto ganha uma enorme acuidade e pertinência quando estamos perante um autor cujo génio criativo – obsessiva e dramaticamente autobiográfico, plasmado em quase quatro dezenas de títulos –, está profunda e afectivamente enraizado em determinada realidade humana, social e ambiental.
Para usarmos as palavras do escritor, estamos diante de um universo tecido de recordações vivas no querido “rio da lembrança”; diante uma palavra enformada por um “universo lírico e viril”, indissociável de um percurso existencial, vivido com intensidade. Por tudo isto, assume enorme expressão em Tomaz de Figueiredo a mitificação do passado, revisitado nostalgicamente como idílica idade de ouro, paraíso perdido de bens queridos e de afeições, contraposto à censurável mediocridade do presente:

Literariamente, nasci livre. Abraçado a esta liberdade, minha luz e minha cruz, irei até que feche os olhos, se tiver quem mos feche. E penso ainda, questão de querer (...), tornar-me lá à minha casa do Minho – hoje casa de fantasmas –, aos meus horizontes do rio e de penedos, aos meus limoeiros e laranjeiras, ao meu retiro entre buxos, à minha fonte só minha, ao meu silêncio que assombram vozes antigas. (Vida de Cão, 1968)

Para conhecer este escritor poderoso e irreverente, é necessário, por isso mesmo, viajar pelas variadas circunstâncias da sua vida; pela sua casa e pelas suas memórias; pelas suas relações pessoais e literárias; pelas suas paixões (a família e os amigos, a caça e a pesca) e pela obra deste contemporâneo da geração da Presença, movimento retratado no romance Nó Cego, escondendo-se ele próprio sob a máscara da personagem Francisco de Sá.
Deste modo, qual empático anfitrião, Tomaz de Figueiredo convida-nos aqui a viagens no seu reino literário e afectivo. Porque a viagem pela sua escrita tensa e passional, às vezes expressionisticamente agónica e dolorida, desencadeia em nós ora a emoção, ora gargalhada sadia, mas nunca a indiferença ou a apatia.
Nascido em Braga, em 1902, é na terra dos Arcos de Valdevez que lança raízes, “terra sua pela memória e pelo amor”. E é também na sua terra dos Arcos que, depois de muitas viagens e andanças, foi enterrado, em 1970, cumprindo-se a sua vontade expressa.
Esta sessão de lançamento do livro ocorre, oportunamente, na Casa de Casares, que foi de Tomaz de Figueiredo (1902-1970), afinal a casa-memória de um escritor dotado de notável personalidade e capacidade criativa, paladino quixotesco da língua, da indignação e da ternura.
Quando falamos de um escritor, a sua casa é o seu castelo e porto de abrigo, o centro do seu universo imaginário, o espaço sagrado do seu labor e dos seus afectos. Por isso, faz todo o sentido evocar uma conhecida passagem de Tomaz de Figueiredo em Viagens no meu Reino, bem representativa da importância que o “espírito do lugar” (genius loci, como diziam os latinos) assume na obra deste talentoso e obnubilado escritor:

Morro de amor pelo meu pátrio Minho,
pela vila dos Arcos, pela Casa
de Casares, onde a minha infância dorme,
onde esperei, feliz, envelhecer,
escrevendo mais livros, sempre livros,
onde cuidei morrer e, como Goethe,
pedindo luz e luz, sempre mais luz,
de janelas rasgadas sobre o Vez

Entre os factos mais salientes que, nos últimos anos, têm contrariado um quase silêncio, injustificado e ignorante, em torno da notável obra de Tomaz de Figueiredo, destacam-se:
i) A reedição, em vários volumes, da obra do escritor pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda no âmbito da colecção “Biblioteca de Autores Portugueses”.
ii) A publicação na mesma editora do Estado, de uma apreciável e insubstituível introdução crítica, da autoria de João Bigotte Chorão, em 2002, conhecedor aprofundado de Tomaz de Figueiredo.
iii) As comemorações do I Centenário do Nascimento do escritor, com destaque para as jornadas Culturais Tomaz de Figueiredo, em 2002, de que resultou a publicação de um volume de estudos críticos – Tomaz de Figueiredo, No Primeiro Centenário do Nascimento, Braga, Lions Clube de Braga, 2003).
iv) Complementarmente, o Colóquio evocativo do escritor que ocorreu na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, no mesmo ano celebrativo de 2002, com a presença de reputados investigadores.
v) Mais recentemente, também na sequência de um Colóquio na Universidade de Aveiro, o Departamento de Línguas e Culturas deu à estampa o volume de estudos Tomaz de Figueiredo, sob a coordenação do Prof. Doutor António Manuel Ferreira.
vi) Por último, a recente publicação do roteiro poético-afectivo de Tomaz de Figueiredo, da autoria do jornalista Antonino Cacho.
Na sequência destas iniciativas, outras não menos meritórias se impõem, no sentido de manter viva a memória de uma obra notável e de assim contribuir para o impulso da sua dinamização, tais como:
1) a continuidade da publicação integral dos escritos deste autor, com destaque para os textos ainda inéditos;
2) a realização de novos colóquios sobre a obra do escritor, matéria prima para muitos e diversos estudos;
3) a constituição de uma actualizada e dinâmica página Web sobre a figura e obra do escritor, proporcionando informações e documentos para leitores e investigadores interessados em qualquer parte do mundo (incluindo aí a digitalização de iconografia, de manuscritos autógrafos, de textos críticos essenciais, etc.);
4) a regular dinamização do já instituído Prémio Nacional Tomaz de Figueiredo, com o apoio directo de uma instituição local;
5) a implementação de variados programas pedagógicos que possam motivar públicos juvenis em idade escolar (desde visitas à casa do escritor, realização de sessões dinâmicas de leitura de textos, e ainda concurso escolares);
6) a concretização de encontros, tertúlias ou serões, dinamizadores do conhecimento da obra do escritor entre públicos de várias idades;
7) enfim, a organização de frequentes roteiros ou itinerários culturais sobre a geografia literária e afectiva de Tomaz de Figueiredo, tendo como guia ou exemplo a obra que hoje se apresenta.

5. Valorização integrada do património

Para finalizar, impõe-se uma curta reflexão conclusiva. Já lá vai o tempo em que, a pensar especialmente na captação de um certo turismo externo, Portugal vendia a imagem de um país com sol e praias, sobretudo a sul. Hoje, o que manifestamente se impõe é a oferta de um rico turismo cultural, que alie, de modo integrado e sedutor, as mais diversas facetas do nosso património (histórico e arquitectónico, ambiental e paisagístico, artístico e literário, imaterial e gastronómico).
É certamente importante que o poder central ou autárquico invista em infraestruturas fundamentais como a rede de águas ou de saneamento, a rede viária, a saúde e a educação. Mas se não investir na área do património está seguramente a cometer um crime de ignorância perante o passado; e a hipotecar o presente e o futuro, na medida em que aliena um dos veios mais centrais da nossa identidade colectiva.
Só enveredando por esta via de defesa consistente do património oferecemos, interna e externamente, um produto genuíno e de qualidade assegurada, que cativa viajantes para reiteradas viagens. Ao mesmo tempo que, internamente e de um modo sustentado, cumprimos um dos mais nobres deveres de cidadãos empenhados, valorizadores da sua história: preservar e conhecer a nossa própria herança patrimonial, em toda a sua amplitude e variedade.
Pelo ano 2000, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação,
Ciência e Cultura), reuniu um vasto conjunto de conceituados especialistas para lhes solicitar as chaves do século XXI.
Ora, neste mundo cada vez mais complexo e perpassado de incertezas, em plena terceira revolução industrial e vivendo as consequências de uma crescente hibridização cultural; e sobretudo sofrendo novas formas de globalização económico-financeira, este fórum intelectual não deixou de abordar a questão do património, como bem comum, inestimável, pelo seu valor histórico, cultural, identitário, para toda a humanidade.
Também o património artístico-literário, nas obras imortais dos escritores, apresenta esta qualidade única: conferir espessura ao tempo; dar sentido à nossa existência.
Por isso, a palavra de ordem deve ser preservação e promoção. Nós somos utilizadores de um riquíssimo património, e não proprietários irresponsáveis. É também por isto que os escritores como Tomaz de Figueiredo nos devem merecer admiração; é por estas razões que nos devemos comprometer na divulgação da sua obra literária, como legado ou património comum, de enorme valor estético e cultural – para o conhecimento do mundo que nos rodeia; para o respeito da própria língua; e ainda para a experiência da nossa condição humana.
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(1) Já no passado, a pensar sobretudo em leitores estrangeiros espalhados pelo mundo, a FCG editara uma antologia de textos, em vários volumes, subordinados ao título genérico Portugal, a Terra e o Homem; volumes organizados por grandes áreas geográficas.
No volume organizado por David Mourão-Ferreira (1979), com autores representativos do séc. XX, na secção dedicada ao Norte, lá comparece um texto de Tomaz de Figueiredo (retirado de Uma Noite na Toca do Lobo), apresentado pelo reputado crítico e antologiador como “dos maiores prosadores deste século”, entre outros qualificativos não menos enobrecedores do escritor hoje evocado.

* Lecciona no Curso de EACs a unidade curricular de História da Arte Moderna

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Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Regeneração urbana de liderança cultural

Texto de José Bastos, aluno do Curso de Estudos Artísticos e Culturais, publicado na revista Arquitectura, 21, nº 3/Abril de 2009
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

A arte, a crise e a oportunidade*

Afinal, não é só nos mercados financeiros e nos sectores da banca, do imobiliário e afins que a ausência de uma legítima instância de regulação proporcionou livre curso à "invenção" de produtos tóxicos, envenenando a economia mundial e gerando a tremenda crise que hoje assola o planeta. Também no respeitável mundo da arte (!), exactamente nos mercados da arte algo de similar se passa/ou.
Da França, com a sua sismográfica sensibilidade aos abalos culturais, vem a precisa denúncia e constatação de que «sem nenhum controle, nem do poder político, nem dos artistas, o aparelho de Estado para a arte contemporânea fica totalmente entregue a si mesmo e às injunções do grande mercado especulativo». Quem o afirma é Pierre Souchaud, no editorial do nº 46 (Mars-Avril, 2009) da revista Artension.
Este lutador infatigável pela “reinscrição da arte no horizonte do humano” olha para a crise sistémica em que estamos mergulhados, perscrutando nela não apenas a oportunidade de o “sistema da arte” se limpar dos “modernos janíçaros” da arte contemporânea (que o poder político alimentou descaradamente), mas também como a oportunidade de se proceder às «mudanças estruturais para reintroduzir no dispositivo das instâncias de controlo, regulação e avaliação». Souchaud vê já alguns sinais «de uma tomada de consciência política» capaz de encetar essas reformas. Não é, portanto, um olhar pessimista nem céptico.
Se este tema lhe interessa, caro/a leitor/a, então não perca de vista o dossier que enriquece aquele mesmo fascículo. Nele, a socióloga da arte Nathalie Heinich e Claude Mollard avançam com proposições que abrem pistas para a implementação das necessárias transformações. Por sua vez, Aude de Kerros traça um conspecto histórico daquele aparelho de Estado, bem como da sua ligação ao rótulo “arte contemporânea”, permitindo localizar com mais especificidade as peças a substituir, os vírus a combater.
Os textos deste dossier poderão ser lidos no endereço http://www.artension.fr/

* Recordo-me de, numa das “ligações” com que mapeava as suas crónicas da contemporaneidade, Eduardo Prado Coelho se ter referido à perspectiva de J. Derrida, segundo a qual “onde existe um perigo existe também uma oportunidade”. Por analogia, o perigo é a crise, e a depuração do sistema da arte a sua oportunidade.
Carlos Morais (UCP/FacFil)

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Domingo, 17 de Maio de 2009

Antiga aluna de EAC's proferiu Conferências em Ourense (Galiza)

Recebemos da Drª Amélia Fonseca uma simpática missiva onde nos dá conta das últimas actividades em que participou. Com a devida autorização aqui transcrevemos um excerto que nos mostra como a arte e a cultura abrem as portas do mundo a esta Antiga Aluna do Curso de Estudos Artísticos e Culturais.
«(…) Estive em Ourense (8 a 10 de Março) a fazer duas conferências relacionadas com o Dia da Mulher. Fui convidada pelo Liceu de Alhariz, onde me encontrei com uma Deputada do Parlamento. (…) É com algum orgulho que digo que esta Deputada me felicitou pela “belíssima mensagem que passei aos jovens daquele Liceu”.
Foi giro. Apesar da língua, entenderam-me muito bem. Disseram que eu era muito emotiva. No dia seguinte (10 de Março) estivemos numa rádio a participar num programa sobre o tema das desigualdades sociais e o papel da mulher na sociedade. Estive também na Associação das Mulheres Trabalhadoras, onde participei numa conferência, juntamente com cinco outras mulheres da Galiza. Não minto se lhe disser que me aplaudiram de pé. A minha intervenção foi, segundo o Professor Isaac Estraviz , “Uma linda lição de vida!” (…).
No dia 23 de Abril estive em Ribeira de Pena num projecto que envolveu todas as escolas do Concelho, desde Jardim de Infância ao 9º ano. Esta actividade decorreu no Auditório Municipal, onde tive a honra de receber do Senhor Presidente da Câmara um agradecimento bem como a sugestão para incluir nos meus poemas as paisagens e as gentes de Ribeira de Pena. (…)
As actividades que tenho vindo a desenvolver nas câmaras de Fafe e Póvoa de Lanhoso, julgo serem do agrado de quem nelas participa. Dois dias por semana em Fafe, e um (às vezes dois) na Póvoa de Lanhoso.»

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